Ministério Evangelismo: Discipulados e a Igreja

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Introdução

Uma das razões que nos estimula a escrever sobre o tema escolhido, é a crise por que passa a Igreja Evangélica Brasileira em seu âmbito eclesiástico, denominacional e geográfico com respeito a sua Missão.  Ao decorrer de meus anos de ministério pastoral e atualmente como professor e diretor de uma escola de treinamento missionário, sou levado a pensar que o momento da igreja brasileira em sua geração é por demais delicado.  Isso porque, vemos as igrejas locais procurando ansiosamente meios de crescimento numérico, muitas delas, sinceramente, buscando cumprir o mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que em sua caminhada, tem abandonado princípios inegociáveis da Escritura Sagrada, resultando em uma situação de “stress” espiritual para a comunidade, a diluição da fé e o enfraquecimento qualitativo e orgânico dos crentes.

Que é mandamento de Nosso Senhor :que cresçamos em número, ninguém duvida, contudo, seria pertinente levantarmos algumas ponderações: Qual a verdadeira motivação dos líderes das igrejas locais na busca ansiosa de um crescimento na igreja?  Estamos observando um crescimento equilibrado nas igrejas locais?  Qual o estilo de vida que Deus tem requerido de sua igreja na missão?  Até que ponto podemos dizer que há um verdadeiro crescimento em nossas igrejas locais?  Nas palavras de um missiólogo norte-americano compreendemos muito bem o que a igreja evangélica brasileira está realizando em seus dias.  Ele afirma que “a Igreja nasceu como um fato na Palestina, veio para a Grécia e tornou-se uma idéia, foi para Roma e tornou-se uma Instituição, foi para os Estados Unidos e tornou-se um empreendimento, veio para o Brasil e tornou-se um evento”.

Atualmente, a Igreja Brasileira está sofrendo, porque não acata o Discipulado como o verdadeiro estilo de vida cristão.  Os crentes não são desafiados a fazer discípulos, e por assim dizer estão tranqüilos com respeito a sua maneira de ser.  Olhando para uma Teologia Bíblica Integral do Discipulado, quero levantar questões relevantes a respeito do Discipulado e ao mesmo tempo descobrir implicações práticas deste estilo de vida proposto por Jesus esquecido pelas nossas comunidades cristãs.  Definições gerais Para que compreendamos o que vem a ser Discipulado, necessitamos recorrer à etimologia de algumas palavras que se nos apresentam nas Escrituras, com respeito a este fato.

Necessitamos definir Discipulado em termos gerais e específicos, na busca dos vários significados que o original grego que no ajuda a discernir o assunto que desejamos tratar.  A primeira palavra que nos traz a mente a idéia de Discipulado é “Akoloutew” (Akolouteo).  Traduzida por seguir, denota a ação de uma pessoa respondendo ao chamado do Mestre e cuja sua vida inteira é reformulada no sentido da obediência.  A idéia no grego clássico era de alguém que seguia a Deus ou a Natureza como idéia filosófica, o mesmo se identificava mediante uma incorporação.  Esta palavra no Antigo Testamento correspondia à “halak” que dava a conotação de “ir atrás de”.  No Novo Testamento, Akolouteo é empregado 56 vezes nos Evangelhos Sinópticos e 14 vezes em João, 3 vezes em Atos, uma vez em Paulo e 6 vezes no Apocalipse.

Embora sendo usada algumas vezes para denotar as multidões que “seguiam” a Jesus, ela somente terá uma importância maior quando atribuída ou vinculada a pessoas que estavam seguindo o Mestre.  Alguns textos, principalmente os que estão narrando o chamado vocacional dos discípulos por Jesus usam Akolouteo para evidenciar um convite muito mais desafiador do que diplomático.  Em Mt 9.9, Jesus chama a Mateus e diz “segue-me”.  A mesma palavra é usada para o desafio colocado ao jovem rico, onde depois que ele vendesse todos os seus bens e desse aos pobres o mancebo deveria seguir ao Mestre.  Quando Jesus fala realisticamente sobre o ser discípulo usa Akolouteo em Mt 8.22 para denotar a prioridade que os seus seguidores deveriam ter para com o seu projeto.

O que nos chama a atenção é que “akolouteo” possui uma força muito grande, tanto historicamente como culturalmente para a época de Jesus.  Com um pano de fundo histórico, “seguir” era fator preponderante para alguém se fazer aluno nas escolas peripatéticas, em que o discípulo se fazia “um com o seu mestre”, mas sobretudo se identificava com o mesmo de tal maneira que o colocava em primeiro lugar, deixando todas as coisas para trás, despojando-as dos níveis mais elevados de compromisso.  Aprender, era de fato uma questão de vida, de exclusividade e de cumplicidade.  Este aprender significava perder tudo para ganhar a vida, fosse no aspecto filosófico ou no religioso.

 No aspecto espiritual, Jesus chamava seus discípulos com autoridade divina, como os próprios profetas eram chamados por Deus no Velho Testamento.  A segunda palavra encontrada é “Mathetes”, (maqhths) “discípulo”.  É aquela pessoa que ouve o chamado do Mestre e se junta a ele.  É um aprendiz.  Raiz da palavra “mantano” (mantano), a palavra era, no tempo clássico, um verbo entendido por “adaptar-se”.  Alguém era chamado de Mathetes, quando se vinculava a outra pessoa a fim de adquirir conhecimento prático e teórico.  Já no Antigo Testamento, a palavra equivalente no hebraico, possuía uma conotação mais fraca.  A ênfase recaía sobre Israel como povo de Deus, no sentido que ele deveria aprender de Deus e se voltar para Ele constantemente.  Contudo, a relação entre o “talmid” (aluno) e o seu “moré” (professor) era muito forte especialmente no judaísmo rabínico.

O relacionamento entre o aluno e o professor tornava-se uma instituição para o estudo detalhado da Torá.  No Novo Testamento Mathetes tornou-se a palavra para indicar total devoção a alguém.  A palavra usada, possuía uma conotação muito forte, onde o discípulo convivia com o mestre, recebendo conhecimento e especialmente no Discipulado de Jesus, estaria disposto a servir.  Outra palavra relacionada ao Discipulado é “mimeomai” (mimeomai), “imitar”.  O verbo enfatiza a natureza de um tipo especial de comportamento, modelado em outra pessoa.  Segundo Brown, “mimeomai” se aplica a pessoas específicas que são obviamente exemplos vivos para a vida da fé.  Mesmo sendo o apóstolo Paulo aquele que usa freqüentemente esta palavra para motivar seus discípulos a uma vida de imitação, jamais ele se incluía como alvo final a ser imitado (I Co 11.1).

 Pelo contrário, ele sempre apontava a Jesus que deveria ser a proposta final de imitação e exemplo.  Chegamos a conclusão que Discipulado tem a ver com o próprio fato de ser da igreja de Nosso Senhor.  Se analisamos estas palavras, definimos tal ação como a que o Mestre se propôs em seu ministério: Discipular homens, para que os mesmos pudessem, ao final de Sua jornada aqui, fazer com que Seus ensinos e mandamentos fossem sabiamente repassados na perspectiva da obediência, tornando os discípulos seus “seguidores”.  Contudo, este “seguir” jamais viria sem um compromisso de vida, de dedicação, de amor e de entrega de vida plena ao Mestre.  Conjugado a isto, o Mestre seria o alvo maior, como exemplo e modelo a ser imitado.  Já não seria um movimento, mas sim, um estilo de vida que todos os seus seguidores assumiriam diante do mundo e chamariam outros a vivenciarem uma mudança radical em prol da glória de Deus e satisfação de seus corações.

 Waylon Moore afirma que “Discipulado é o processo de tomar novos convertidos, educá-los e levá-los a um estado de maturidade e adulta comunhão com Cristo e de serviço eficiente na Igreja”.  E continua: “fazer discípulo de uma pessoa é levá-la a experiência de ter Jesus como Senhor e Centro de sua vida.  Ser discípulo implica num ato de entrega e num processo de obediência.  Um homem é discípulo de Cristo, quando permanece em sua palavra, glorifica ao Pai e dá frutos.  ( João 8.31;15.8)”.  Sem dúvida, a experiência de ser encontrado por Cristo através da fé é condição sine qua non para que o Discipulado se inicie na vida de uma pessoa e o processo de obediência é o resultado sadio de alguém que está caminhando na fé.

 Além disso, Robert Coleman afirma ao comentar o texto de Mateus 28.18-20, que o Discipulado se refere ao “ir, batizar e ensinar particularidades de uma ação maior, ao que Jesus chama de “fazer discípulos”.  São responsabilidades que derivam da direção do “fazer aprendizes de Cristo”.  Coleman chama a atenção da igreja, dizendo que discipular homens e mulheres é a prioridade acerca da qual nossas vidas deveriam ser orientadas.  Já David Kornfield, trabalhando no Brasil, atualmente com pequenos grupos e Discipulado, em seu artigo Discipulado, a Verdadeira Grande Comissão, define Discipulado como “uma relação comprometida e pessoal em que um discípulo mais maduro ajuda outros discípulos de Jesus Cristo a se aproximarem mais dele e assim se reproduzirem” e argumenta: “se o Discipulado perder de vista o relacionamento comprometido e pessoal, deixa de ser um Discipulado bíblico”. A sua ênfase está nos relacionamentos.

É no relacionamento pessoal e social que se descobre o verdadeiro valor do Discipulado. Se não há relacionamento interpessoal, então é impossível a realidade do Discipulado de Cristo.  Larry Richards, em seu livro Teologia do ministério pessoal comenta que “o Discipulado envolve a reformulação da vida do cristão em direção à obediência, a fim de que possa tornar-se como Jesus” e continua: “A missão da igreja não é simplesmente conseguir conversões mas completar o processo da vida cristã fazendo discípulos”.  

VI. Conclusão
Este trabalho nos estimulou a procurar biblicamente as causas do crescimento e missão da igreja e responde-las através do Discipulado. O grande desafio da igreja é ainda hoje, o moldar vidas segundo o caráter de Jesus Cristo. O Discipulado Missionário, se assim podemos nomeá-lo, ainda não está satisfazendo biblicamente o Senhor da Seara. Ao analisarmos todos os pontos essenciais da vida de Cristo, somos inarredavelmente levados a procurar reavaliar a vida cristã e sobretudo através de uma autocrítica, desafiados a tornar nossas comunidades, igrejas de discipuladores. Carecemos de pessoas fiéis e idôneas, que possam transmitir a outras este caráter de Cristo, não apenas pela verbalização, mas também com a vida. A igreja necessita de um arrependimento verdadeiro e mudança de vida. Deve tornar a vida mais simples e menos rebuscada, mais cheia de frutos de vida e menos ativista, mais cristã e menos institucionalizada. Se acreditarmos no Discipulado, seremos os primeiros a mudar, e se isto acontecer de fato, cumpriremos cabalmente a Grande Comissão não como um programa a mais, mas como um estilo de vida, para a Glória e Honra de Nosso Senhor Jesus Cristo.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom o seu alerta quanto, no´s, como Igreja, necessitamos de sermos ensinéveis, para sermos discipulados e então sermos discipuladores. os que são maduros ensinarem os que estão começando na fé. tenho vontade de voltar a ser discipulador, porém preciso aprender mais. voltar ao primeiro Amor, entende.

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